quinta-feira, 14 de março de 2013

Artigo: Por que lutamos? - Por Ramon Alves*


Frequentemente, nós, militantes do movimento estudantil, escutamos de amigos e pessoas mais próximas indagações sobre os motivos que nos levam a nos organizar politicamente, participando do movimento social e defendendo nossas ideias "sem ganhar nada com isso", como se tudo se limitasse a uma mera vantagem ou desvantagem financeira. "A mala preta deve ser muito volumosa", dizem os mais alvoroçados.

Qual é o valor de uma vida que já aparece construída para todos nós desde o primeiro momento em que a sentimos? A humanidade (aliás, uma ínfima parte dela), ao longo do seu desenvolvimento histórico até os dias atuais, delineia como pensaremos, quais serão os nossos preconceitos, dramas pessoais e necessidades. Todos nascemos prontos a sermos moldados, embora nem todos se mantenham dentro da jaula (pelo menos completamente) que nos é imposta.

Ou é natural que os homens e mulheres se encantem com um iphone novo e não consigam notar e se indignar com um semelhante na miséria? Ou natural a sociedade do patriarcado, que ignora a capacidade e os desejos da mulher e destila preconceito e ódio contra expressivas camadas populacionais? Não é esse o nosso natural, mas o é para um modelo de organização da sociedade que na sua base fundamental, a econômica, necessita da desigualdade para existir.

Respondo às indagações questionando o sentido da vida tal como ele se apresenta para nós. Necessariamente, a média da população é levada a se adaptar àquilo que a televisão apresenta. Para a ordem vigente, a juventude precisa situar-se o mais próximo possível dos estereotipados personagens de Malhação. As novelas padronizam comportamentos, falas, modo de se vestir e de consumir de imensas parcelas sociais. Não há reflexão, mas uma inserção automatizada das pessoas nessa maneira de construir relações e de viver.

Ser feliz é abocanhar sua fração de consumo global. Consumo tal que iguala as mesmas aspirações de um garoto em Felipe Camarão e outro em Nova Iorque, tornando-se fator crucial para o acirramento da violência. Conforma-se assim a justaposição da pobreza sobre a necessidade de consumo da nossa assimétrica sociedade, em que a opulência e a injustiça passam diariamente por debaixo do nariz dos mais pobres - nas ruas e na televisão.

No mundo, embora estejamos no auge da nossa capacidade produtiva, 1 bilhão de pessoas passam fome enquanto a humanidade detém tecnologia, riqueza e conhecimento para saldar essa e outras estatísticas nada civilizadas. Não há lugar para todos e mesmo os que estão com seu lugar garantido hoje não podem confiar que estarão mais na frente.

A exemplo disso, como será ser um jovem espanhol, país onde 6 em cada 10 pessoas na faixa dos 18 aos 24 anos ingressa na universidade, e enfrentar um desemprego estrutural, sem luz no final do túnel, e onde, mesmo quando se encontra emprego, este é precário e mal remunerado, via de regra? Não é diferente para os jovens gregos ou portugueses. Este é o mundo em que as crises econômicas, provocadas pela ganância humana, desenvolvem sentimentos xenófobos quando e onde deveriam produzir solidariedade. O caso mais recente envolve a relação entre alemães e gregos.

A luta política, o desejo e o entusiasmo pela transformação não são fins em si, não são  elementos estéticos para afirmação social ou algo que o valha, mas um processo de mudança individual e coletiva, de conhecimento e de valorização de características que nos aproximam da real natureza do ser humano. É nessa dialética que aprendemos a lidar com os diferenças e sobretudo respeitá-las.

Respondendo à pergunta do título: é na militância política que nos libertamos enquanto seres humanos e nos reconhecemos como tal. É nela, na paixão intensa que desperta naqueles que acreditam nos seus sonhos, que a vida se realiza de forma plena em sentido.

* Vice RN da UNE e Coordenador de Articulação do Centro Acadêmico de Gestão de Políticas Públicas