quarta-feira, 26 de outubro de 2011

A Construção de uma Primavera Livre

A magia da organização coletiva está no processo de rompimento de nossos anseios pessoais para transformação de um processo coletivizado. Junto com o inicio da PRIMAVERA a gestão do DCE-UFRN 2011-2012 Primavera Sem Borboleta, construiu uma série de atividades dialogando com nossas demandas locais e globais. 

Qualquer mudança é possível com a nossa organização. Durante 11 dias dezenas de pessoas ocuparam a Câmara Municipal de Natal reivindicando MUDANÇAS. O Acampamento #PRIMAVERAsemBORBOLETA tinha uma grande parte de estudantes da UFRN. Porque será? Talvez seja por compormos uma minoria muito privilegiada da juventude Latino-Americana que vive o acesso a academia? Mas quem somos nós? 

No Chile, 20% do país está nas ruas, em sua ampla maioria estudantes secundaristas e universitári@s, reivindicando educação PÚBLICA e de qualidade. Um país que luta por um sistema nacional de ensino que garanta educação superior PÚBLICA. Estudantes, como nós somos hoje ou já fomos nos bancos de escolas públicas, que querem o direito de estudar independente do seu nível de poder aquisitivo; uma nação que viveu uma ditadura, assim como a nossa, que exterminou uma geração de lutador@s; pelo direito a soberania de sua nação. Por justiça. 

Nós somos aquel@s herdeir@s coletivos das pessoas que viveram, há 76 anos, um levante comunista forjado a sonhos e ações coletivas, que lutavam por JUSTIÇA e essa luta custou muito caro aos movimentos que acreditavam em uma outra economia. Somos oriund@s da única cidade Brasileira a viver durante o final de novembro de 1935 três dias de exercício de resistência no Levante de 1935. O que aprendemos com isso? O que restou dessa luta? 

Somos filh@s da terra que acolheu Elizabeth Teixeira, mulher fundadora das Ligas Camponesas que teve um papel fundamental no processo de JUSTIÇA e reforma agrária da nossa nação. Mulher que sobreviveu aos preconceitos mais cruéis do patriarcado acreditando e PRATICANDO um outro modelo de sociedade; que trocou o ensino de alfabetização a crianças em Angicos por teto, alimento e sobrevivência, estabelecendo outros modelos de cooperação e resiste. O que nós temos a ver com isso? 

‘De Pé no Chão’ devemos refletir sobre o momento que vivemos, o que conquistamos e COMO vamos avançar na disputa desse poder REAL possível somente pelo coletivo. Temos a responsabilidade de nos empoderar de nossa história, daquilo de que somos contituíd@s, daquilo que compõe nossa identidade coletiva. 

Somos apenas 13% da população brasileira que tem acesso ao ensino superior, apenas 4% oriund@s da escola pública. Na UFRN ainda somos menos de 50%. E, para além disso, quais são as CONDIÇÕES que estão sendo criadas para tratar com equidade quem NÃO teve as mesmas possibilidades? Segundo a pesquisa do SISU que faz um diagnóstico da ocupação da universidade pública brasileira publicada nesse mês 10% d@s estudantes universitári@s da rede pública tem filh@s. No orçamento para assistência estudantil quanto está sendo destinado a esse tipo de ação? Segundo o Plano de Desenvolvimento Institucional da UFRN- PDI publicado em Outubro do ano passado em 1999 eramos 19.242 estudantes dez anos após chegamos a 33.216 crescemos 72,6%. Porém nesse mesmo período as vagas na educação infantil que eram 419 e caíram para 357 reduzindo -14,8%. E agora com 38.000 estudantes? Apesar de acreditarmos no processo compartilhado de maternidade e paternidade, somente as mulheres tem que sair da residência quando engravidam. Culpa delas? Se acreditamos que gerar um filh@ é uma responsabilidade compartilhada a solução também deve ser buscada em conjunto e não somente entre aquel@s que tem filh@s mas entre quem acredita que outra universidade é necessária. Não é COERENTE se o Estado também assumir suas responsabilidades? É injusto não termos ao menos uma residência universitária adaptada para possibilitar que jovens com filh@s tenham o mesmo acesso a universidade? 

Esse mesmo PDI indica que em 1999 a UFRN dispunha de em seu quadro 3.513 Técnic@s Administrativ@s após uma década houve uma redução de 11,5% ou seja, 3.108 funcionári@s. A saída para esse processo de enxugamento do quadro e expansão da instituição foi a criação e investimento na processo de terceirização e nas Bolsas de Apoio Técnico. No dia 23 de Setembro retomamos a articulação com esses estudantes realizando a IV Paralisação de Bolsistas da universidade, dentro da Jornada de Lutas pautando o cumprimento da resolução 222/2010 que aponta o rompimento da lógica estabelecida de transformação de bolsistas em funcionári@s. Essa frente de luta de bolsistas vem de um histórico de organização desse segmento que fez um grande enfrentamento na disputa do direito ao acesso e permanência d@s estudantes bolsistas da UFRN. Resultando em uma resolução que garante direito a férias de 30 dias, plano de atividades que define atribuições, exige acompanhamento de atividade e garante a certificação pelas diferentes atividades realizadas durante o período da bolsa. Queremos o fim desse tipo de bolsa na universidade brasileira. Através de concurso público para Técnic@s Administrativos e que esses tenham a garantia de todos os direitos justos de trabalho. As bolsas tem que dar condições de produção de conhecimento e facilitar a nossa permanência na universidade e não a precarização da permanência de estudantes de origem popular. 

Além disso temos milhares de pessoas trabalhando para a universidade através de contratos terceirizados, extremamente precarizados, empresas que não tem a menor responsabilidade com a qualidade de vida e respeito ao trabalho realizado. Pessoas essas, que cruzamos todos os dias e infelizmente “não conseguimos enxergar”. Temos empresas que não cumprem políticas de cotas, que já descumpriram diversos prazos de contratos com a universidade. A política de contratos na universidade possibilita a existência empresas que MONOPOLIZAM serviços como a SERVGRAFICA (empresa de xerox que fora da universidade oferece o mesmo serviço com menor custo). Atingindo diretamente a MAIORIA da universidade, empresas que continuam a ser contratadas recontratadas. E o que nós temos a ver com isso? 

Não é JUSTO que após um ano de Restaurante Universitário fechado para reformas o espaço físico reformado não comporta a demanda do campus. Por isso no mesmo dia da Paralização de Bolsistas, fizemos uma feijoada na reitoria denunciando o planejamento ineficiente. Assim como reivindicando o consumo de alimentos saudáveis que sejam oriundos da Agricultura Familiar, a descentralização da venda de tickets, a redução do valor cobrado e a construção de um novo refeitório. 

Queremos menos bolsas residência e mais residências dignas, queremos mais bolsas de extensão, pesquisa, monitoria e menos apoio técnico. Queremos mais centros de educação infantil para noss@s filh@s. Queremos o campus abertos nos finais de semana para tod@s com uma política de arte e esporte. O fim da cobrança de taxas em eventos financiados com verba pública. Queremos mais funcionári@s efetivos com direitos garantidos, mais professor@s efetivos. 

Queremos poder decidir sobre os rumos de investimentos, prioridades e políticas da universidade, simplesmente porque ESSA INSTITUIÇÃO NOS PERTENCE. Acreditamos na importância de investimentos que tivemos com o REUNI, porém precisamos construir ‘poder’ para disputá-los. Sem perder de vista as disputas para além dos muros da universidade. O fortalecimento de iniciativas como os projetos de extensão como Lições de Cidadania, Pau e Lata, Trilhas Potiguares e iniciativas como o coletivo de Mulheres,o GUDDES, o Coletivo de Juventude do Campo e da Cidade, o Movimento Organizado de Residências Universitárias, a Rede de Articulação Antiproibicionista Potiguar. Assim como os CA’s que se fortalecem quando se organizam nos DA’s, disputando e construindo um coletivo, para assim organizados, termos o papel de disputar os rumos da universidade. 

Nós trabalhador@s construímos a riqueza desse país, através de nosso trabalho e reivindicamos a democratização do conhecimento, da academia, da UFRN. Provocamos tod@s a refletir sobre as palavras citadas no principal documento da instituição; ‘A missão da Universidade Federal do Rio Grande do Norte é educar, produzir, e disseminar o saber “universal”, preservar e difundir as artes e a cultura, e contribuir para o desenvolvimento humano, comprometendo-se com a JUSTIÇA social, a sustentabilidade socioambiental, a democracia, e a cidadania’. Não queremos nada além dessa missão e temos responsabilidade em indicar metodologias e possíveis caminhos para sua efetividade. 

Reivindicamos orçamento participativo, onde e o que é prioridade de investimento. Queremos a democratização da TVU e da FMU (essa que foi fundada como um projeto do DCE e hoje não temos nenhum acesso a sua programação). Queremos discutir economia, antropologia, ciência, arte, história, socialismo, feminismo, saúde, sustentabilidade, equidade, diversidades e tantos outros temas de real relevância a sociedade. Produzir conhecimento e tecnologia, utilizando a NOSSA UFRN, para assim disputar nossas idéias e visões de mundo. 

Queremos que nosso conhecimento seja transformador na vida desses outros 87% de jovens brasileir@s que estão do lado de fora da academia. Que nossas tecnologias facilitem a vida das pessoas que vivem nos 60% do território do RN que está no Semi-Árido, que fortaleça a agricultura familiar, responsável por 70% da alimentação. Queremos que o conhecimento construído nessa instituição PÚBLICA seja determinante no espaço onde vivemos na cidade e no campo. Queremos por exemplo que o sistema de mobilidade urbana da cidade seja pensando levando em conta a maioria da população, fortalecendo as possibilidades mais sustentáveis como trens e ciclovias garantindo acessibilidade e o que está sendo investido nisso? Não temos acessibilidade nem em nosso circular e campus. 

Somos jovens que vivem em uma cidade que NECESSITA sobreviver com dignidade e respeito à COPA de 2014. Precisamos saber o que a UFRN tem a dizer sobre cada projeto apresentado pelo executivo. Porque ela tem responsabilidade em dar retorno a sociedade indicando caminhos para o avanço da democracia. Precisamos saber o que NÓS temos a dizer sobre esses projetos de infra estrutura com impacto direto no desenvolvimento e na vida cotidiana de milhares de potiguaras. 

O RN está na rota da exploração sexual internacional, nas olimpíadas da Alemanha chegou-se ao cúmulo de realizar leilões de mulheres por nacionalidade, como se compram bandeiras em lojas de suvenir. Vamos aceitar passivamente a exploração e violação de diferente formas dos direitos humanos e agir naturalizando a prostituição? Alguns dizem que a demolição do Machadão é um crime a história potiguara. E nós, o que fizemos? O que faremos para disputar dentro e fora dos muros da universidade o modelo de desenvolvimento para a realização dessa COPA? Isso é agir sobre a realidade potiguar que passará por mudanças nesses três anos, mas terá impacto de gerações. Queremos uma UNIVERSIDADE a serviço quem paga literalmente pelo privilégio de sermos UNIVERSITÁRI@S da maior universidade pública do Rio Grande do Norte. 

Lutamos fora da universidade e vencemos no #AcampamentoPrimaveraLivre porque nos permitimos experimentar uma outra forma de construção coletiva de uma outra cultura política. A constituição desse espaço de diálogo a partir da I Jornada de Lutas da UNE é um chamado a tod@s que acreditam na necessidade e na possibilidade de vitórias coletivas na disputa de rumos de uma universidade justa em uma PRIMAVERA LIVRE. 


“Companheira me ajude que eu não posso andar só, Eu sozinha ando bem, mas com você ando melhor!” 

“Até que tudo cesse, nós não cessaremos”