sexta-feira, 8 de julho de 2011

Carta ao movimento fora micarla e afins.

Sonhoras e sonhores,

É bem verdade que eu poderia estar à luz do dia entre vossas trincheiras e flores bem antes - e na verdade de muitos modos, alguns mais divertidos que outros, eu estive. Que me perdoem os acadêmicos mais clássicos, mas é mesmo assim, saltando por uma janela, que vos chego, espero que com certa elegância. Não se fazem mais entregadores como antigamente. Disfrutemos do email, portanto.

Boas maneiras e discrições a parte, o que importa é que essa carta esteja entre vossos corpos. Não temam, ela não contem nenhuma radiação ou toxina, ainda que vocês se sintam naturalmente declinados a desconfiar de alguém que salta por janelas e usa entregadores – mas acreditem, em certas ocasiões essa espécie de desconfiança é não somente o pior a praticar, mas uma opção inteligente.

Sem lhes privar de mais tempo e solenidades, gostaria de ir direto ao coelho – quero dizer, com as proprias mãos e chapéu, sem facão -:

Depois da colonial Guerra dos Bárbaros, cujo epicentro terrível e temido pelo Império passava pelas bandas potiguares, nunca mais o povo daqui foi tão rebelde... se ao menos as primeiras notas de raiva dos espíritos desses indígenas assassinados aqui pudessem ser ouvidas e tocadas, seriamos a população mais braba e temida pelo Estado nacional; comeriamos com paletó e tudo nossos ilustres senhores feudais de sempre. Mas tudo é bem menos, sabem os ativistas de vários séculos. Talvez algum tipo de “sangue rim” ou medo ancestral passe pelas veias potiguares. Seria preguiçoso demais acomodar-se nisso, ainda que faça sentido quando estamos furiosos...

É, pois, muito mais contentador que intrigante admirar onde chegou o movimento chamado Fora Micarla e todos os seus agregados afins. Digo isso por que não é preciso ser velho nem especialista para saber que uma cidade historicamente castigada por um povo acomodado e arrebanhado por coronéis e movimentos politicos juvenis de pouca ousadia, tem boas razões para explodir em longa furia de primavera algum dia. Sobretudo agora, que as telas e redes balançam satisfatoriamente para o lado dos ventos da faxina, estou tentado a acreditar que esses dias chegaram e já começaram sua terrivel e maravilhosa limpeza. Arabias, Espanha, Chile, Grecia... Natal!?

Oh Yeah, mais uma vez confirmou-se: o que quer que seja apaixonado e ousado na politica dificilmente nascerá fora do meio juvenil. Não é que meus contemporâneos de idade e todos os demais senhores que pintam ou não seus cabelos, não sejam capazes de lutar e ajudar a criar situações mais satisfatórias para esse mundo. O fato é que a vida adulta e senil se encontra na maiorias das vezes ocupada com outras coisas, digamos, mais inerciais, que sacudir a poeira de servilismo de uma cidade chamada lamentavelmente (como se pode levar à serio qualquer coisa que tenha a ver com Papai Noel?) de Natal.

Temos estudado bastante os fatos, num esforço semelhante ao que se chama com tanta modéstia e seriedade de “análise de conjuntura”; contudo gostamos de transpassar as obviedades com flechas bem pontudas e no final assá-las como espetinhos; também apreciamos o bom humor como arma invencível. Do fundo desse coração lhes agradeço e felicito por tamanha valentia e autonomia, irmãos! Ainda que meus cabelos grisalhos tenham estado entre vocês em muitos momentos importantes nesses ultimos meses, quero que os senhores e senhoras saibam que nossa equipe aplaude parte considerável dos métodos e conquistas do movimento. Parte considerável, pois, me permitam, alguns pontos preocupam a mente desse ativista e analista com alguns anos de experiência em ativismos de diversos estilos... É num momento decisivo que essa carta vos alcança:

A guerra já está instalada. Minha amiga Amanda Gurgel, também conhecida como Amandinha, pôs na ordem do dia a luta dos professores e desde então a bomba-relógio das salas de aula já faz tic tac tac tic. Novas movimentações não a-curraladas despontam nos ultimos meses: midiaticas, twitáticas, rebeldia eletromagnética, postos de gasolina desafiados, novos personagens, novos instrumentos. As xerifes do municipio e Estado têm apertado os botões errados da máquina feudal da reeleição induzida, deixando categorias com baixo ou sem pagamento; a prefeita ladra e inapta foi acossada e sua autoridade moral tumbada do imaginário até dos natalenses mais natalinos (aqueles que acreditam até em Papai Noel) – claro, os currais e primos se esforçarão por borrifar perfumes estragados na aura estatal... mas não é essa parte de sua equipe aquela que mais deveria nos importar. Falemos um pouco sobre guerra, ainda que gostemos de carícias:

Os editores de midias alternativas locais não-feudais (como a “cult” Carta Potyguar) já receberam ataques cibernéticos (coincidentemente eles têm a mania de publicar textos contra o preço da gasolina, Copa e Micarla), a bela senhorita Amanda teve sua vida e cotidiano revirados em poucas semanas, pelo menos um membro do Fora Micarla foi gravemente ameaçado e certamente alguns de vocês já tenham sido ameaçados ou simplesmente estejam sendo monitorados (já que assustar a presa antes de conhecer seus hábitos não ajuda o caçador a eliminar o grupo inteiro), seja por Inteligências estatais ou privadas. Eu mesmo já notei dois ou tres infiltrados bastante amadurecidos em nossas atividades. Como sei de tudo isso? Simplesmente aprendi: enquanto todos se divertem fazendo outras coisas, eu me divirto fazendo isso. Nada que eu venha a dizer que não sejam detalhes seria novidade para os mais espertos e maceteados dentre os senhores. Como avisado, sabemos que estamos em guerra, ainda que não simpatizemos com armas, agressão fisica ou terrorismo. A guerrilha é psíquica: por mais que os mais inocentes dentre os senhores veja tudo isso de Fora Micarla como uma brincaderia politica divertida e necessária (e eu concordo que devemos nos divertir ou pouca coisa vale a pena), eu lhes aviso que o tecido e as táticas estatais nem sempre aparecem na tv, nos livros de sociologia ou blogs. A malícia, irmãos, é um oráculo político. “Cada um é um lider” é uma ótima tatica e ética, mas não nos protege o suficiente.

Digo essas coisas por sincera convicção de que o movimento deve avançar não apenas em números de acampamentos e passeatas, mas em cuidados de guerra. De guerra, evidente, pois quando a política não acontece (e, não sei se todos perceberam, mas nossas xerifes e foras da lei não parecem tão dispostos a conversar, negociar e ganhar limpo. O governo não trata seus inimigos como inimigos de governo, mas como inimigos do estado ou inimigos pessoais: “golpistas”, “oposicionistas”, “vagabundos”, “financiados”), resta sua irmão gêmea e mais velha, a guerra, a dar o tom da música. E a música toca mesmo que não escutemos...

Já vi de perto 5 ou 7 movimentos politicos juvenis promissores cairem de morte matada: ou primeiro nas garras implacáveis da racionalização e calculismo dos aparelhistas, ou, os que sobreviviam a isso, cairem logo adiante nas garras da espionagem e sabotagem por inimigos subestimados e “desconhecidos”. Sei que se trabalhamos ou estudamos não há suficiente tempo e energia para precaver-se e entender todos os personagens em jogo nessa trama, no entanto a semente deve ser plantada. Assim como o fermento não é visivel no pão, venho lhes prestar meus serviços discretos sem maiores ambições que não sejam fazer-lhes mais precavidos. Usem suas imaginações também para colocar-se na mente de um poder caduco, violento, cheio de dinheiro e nem tão feudal quanto parece. Não se esqueçam que Natal é um porto turistico cheio de máfias, vossas excelências prostitutas baratas e oligarquias hobbesianas; xerifes são bons aliados de multinacionais e as eleições muitas vezes se decidem em mesas onde não se fala português. As ameaças tomam outra dimensão quando pensamos nas cifras que estão em jogo. Nós atrapalhamos muitos negócios. Entretanto, calma: hay que ser atento sin perder la ternura... Desejo que atrapalhemos muito mais. Pois de negócioS se trata a politica nesse Estado já faz muito tempo.

Eis o começo de uma Nova Era na cidade; estamos tendo a honra e responsabilidade de pari-la. Gostariamos que o bebê seja bem cuidado para que cresça, imagino. Nossa missão é enorme e durará decadas. Natal nem república ainda é, imagine democracia. Bah! A maioria dos políticos potiguares nem homens conseguem ser. São pouco menos que baratas. Mas baratas que determinam preços, concessões de transportes, salários, contratos e o destino público da cidade. Imaginem só uma cidade governada por baratas! - seriamos cúmplices de baratas nojentas? É melhor para nossa saúde que não nos tornemos os próprios vereadores ou prefeitos, mas que simplesmente os vigiemos e chantageemos (essa é a palavra exata!) com o potencial de atos publicos crescentes e audazes. Um estudante alto e raivoso disse lá na camara, ao constituir-se a tão árdua Comissão de Investigação, que os campistas da camara “não estavam cansados!”. Espero mesmo que não nos cansemos, camaradas. Por que Micarla já está tumbada antes de cair; entretanto esse inseto é mais um inseto do grande enxame que pica e rodeia essa cadaver suculento que é essa cidade das moscas engravatadas e falantes. Proponho que nos organizemos para nos tornamos cada vez mais temidos por todos aqueles que tenham a coragem de ser eleitos. A mídia feudal não ajudará tanto nossa fama, mas passeatas e atos criativos sim. Os sonhores e sonhoras tem sido muito generosos em valentia. Não seria muito pedir mais o que, eu sei, já está a caminho!

NINGUÉM MI CA(R)LA nem calará... Por hora vigiemos a comissão e aproveitemos para conhecer bem os vereadores que podem ser as próximas vítimas do povo organizado; algumas baratas tentarão engavetar, elas adoram gavetas velhas - observo de muito perto seus movimentos barateados e junto dados para que a vassoura do poder popular seja usada.

Espero ter oferecido utilidade aos ilustres sonhores. É uma pena que meus antigos problemas com os xerifes, assim como a natureza delicada da minha função aqui realizada, obviamente não me permitam estar público em reuniões ainda que meu corpo vez ou outra sim; mas estamos em época de twitáticas e ondas eletromagneticas guillhotinando poderes...

É C, C de Caos. O bom. Em breve voltarei. Ou achavam que iam se divertir sem mim?

Dom Caos