quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Condenados na operação impacto colocam familiares para disputar eleição.


Matéria do Novo Jornal denuncia um escândalo: vereadores condenados na Operação Impacto, com medo de serem barrados pela lei da Ficha Limpa, colocaram parentes para disputar a eleição e, assim, tentar manter o espaço na Câmara Municipal de Natal. Adão Eridan e Dickson Nasser escalaram seus respectivos filhos, enquanto Adenúbio Melo inscreveu a mulher para a missão.
O que impressiona é esses vereadores encararem o mandato como se fosse um feudo, um espaço particular a ser preservado a qualquer custo e transmitido de pai para filho, ou de marido para mulher. Em comum, eles têm o fato de fazerem política com base no assistencialismo barato, usando a fragilidade das pessoas para se elegerem.


Novo Jornal:
A APLICAÇÃO DA lei da Ficha Limpa tem levado candidatos com problemas na Justiça a buscar alternativas para seguir com poderes na política. Parte dos réus condenados no processo ajuizado a partir da Operação Impacto usará as candidaturas de parentes próximos como estepe. Assim, caso a lei seja de fato aplicada e os condenados não possam mesmo concorrer à eleição, todos os esforços da campanha serão transferidos ou divididos com filhos e esposas. Dos quatro vereadores da atual legislatura de Natal condenados por vender o voto na revisão do Plano Diretor de Natal em 2007, pelo menos dois já comentaram com colegas da Câmara Municipal que vão usar a estratégia de apoiar parentes na eleição diante da possibilidade de serem impedidos pela Justiça Eleitoral.
Adão Eridan (PR) e Adenúbio Melo (PSB) inscreveram como candidatos o filho e a mulher, respectivamente, como alternativa para tentar manter sob seus domínios a cadeira que ocupam na Câmara Municipal. Procurados pelo NOVO JORNAL, os dois admitiram a estratégia, mas garantem que confiam na Justiça e ainda esperam ser absolvidos. “O registro (da minha esposa) quem dita sou eu. Com certeza ela vai (ser candidata) se a Justiça não me deixar. Até porque não tem como sair os dois, né? É muito caro. Mas botei ela também porque não sabia se o PSB ia me dar a legenda depois que votei contra as contas do ex-prefeito Carlos Eduardo. Independente disso acredito na Justiça e em Deus que vai dar tudo certo. Estamos torcendo”, afirmou o Adenúbio Melo, marido de Janderre Franco de Araújo Melo, que não quis dar mais detalhes da candidatura.
“Estou conversando com meus advogados agora justamente para resolver isso”, comentou.  Adão Eridan é pai de Jonatas Moabe Silva de Andrade e também admite o plano. Ele conta ainda que, além do filho, também registrou a candidatura da nora. Mas sobre isso revela uma história curiosa que mostra o quão distante as mulheres estão do mesmo patamar dos homens na política. “Vou explicar: para candidatar dez pessoas, três têm que ser mulher. Aí botei minha nora, uma amiga e uma funcionária que trabalha com a gente. Mas é apenas para constar, não vou pedir voto para elas não”, explicou.
Outro vereador que vive situação semelhante é Dickson Nasser. Apesar de já ter anunciado que não vai concorrer este ano, Nasser também foi punido pela Justiça no mesmo processo e decidiu apoiar um i lho. Em 2010, ele ajudou a eleger deputado estadual o filho mais velho, Dibson Nasser, e agora tenta firmar a dobradinha na Câmara Municipal com Dickson Júnior, publicitário que nunca concorreu a um cargo eletivo antes. O NOVO JORNAL ligou para os telefones do vereador, mas ele não atendeu nenhuma das ligações.
Tal Pai, Tal Filho
No caso da estratégia do vereador Adão Eridan, que tem a mesma estimativa de gastos com a campanha do i lho (R$ 500 mil), a tentativa de aproximar um do outro é clara. Além de registrarem as duas candidaturas pelo mesmo partido, o PR, os números que usarão na campanha são sequenciais. Enquanto Eridan vai de 22123, Jonatas Moab usará o 22456. Outro dado que chama a atenção na candidatura do filho do vereador é o patrimônio declarado. Moabe tem 25 anos e, segundo revelou ao Tribunal Superior Eleitoral, é ‘estudante, bolsista e estagiário e assemelhado’.
Aos 25 anos, ele está concluindo o curso de odontologia na UnP. Em nome dele constam dois carros (Fiesta e Corsa), uma moto e um terreno em Nízia Floresta. Os bens estão avaliados em R$ 51 mil. O candidato responde a dois processos na Justiça envolvendo dívidas relacionadas à aquisição de veículos. Moabe comprou em 2008 um veículo modelo Fiesta por 60 prestações de R$ 980,93. Porém, o HSBC Bank Brasil S/A pediu a reintegração de posse do carro por falta de pagamento. Segundo a ação, cuja sentença favorável ao banco saiu em 13 de abril de 2012, Jônatas pagou até setembro de 2011. A outra ação é de 200 foi ajuizada em 2009 pela empresa Dibens Leasing S/A Arrendamento Mercantil, que também cobrou por um veículo. No sistema leasing, ou arrendamento mercantil, o interessado aluga o produto com preço de compra fixo. Pelo processo, Moab alugou um carro e também não pagou.
Procurado pelo NOVO JORNAL, o candidato informou que as pendências judiciais já estão resolvidas. Ele explicou que num processo comprou o carro para um amigo, que vendeu o veículo e, por conta disso, o nome dele ficou sujo. Já no outro, a falta de pagamento se deu por motivos de viagem. “Tive que viajar e não paguei algumas parcelas, mas já está tudo quitado com a Justiça e não vai atrapalhar a nossa eleição”, disse.
‘Colocado’ na política
O vereador Adão Eridan é tido como referência em Felipe Camarão. De caixão de defunto a ambulância, muita coisa é doada à população carente da Zona Oeste através da fundação Maria Neuzelides, criada em 1997 no bairro e mantida pelo mandato de parlamentar e as parcerias com entidades filantrópicas. Mas a ideia do vereador é crescer. E, diante da possibilidade de ser impedido de continuar na Câmara Municipal, o filho é sinônimo dessa expansão.
Jônatas Moabe é o estepe de Adão Eridan e dá mostras de que entendeu qual é sua função. “Meu pai me colocou para ajudar mais ele a expandir o trabalho por toda Natal. Ele me colocou na Zona Norte, mas não quer dizer que não vou trabalhar par ao resto da cidade”, disse.
Segundo Moabe, caso eleito, o foco do mandato será o ‘trabalho pelo social’. Concluinte do curso de odontologia da UnP, ele espera poder botar em prática o que aprendeu na faculdade. Junto com outros serviços. “Na parte de educação quero investir em cursos profissionalizantes, também na assistência odontológica. E vou incentivar a cultura e a prática de esportes. Um dos meus objetivos é conseguir junto ao prefeito que os alunos fiquem em tempo integral nas escolas”, afirmou o futuro dentista que se mostra empolgado com a campanha. “Está muito boa, muito gente já me ligou para agradecer o trabalho que estamos fazendo pela Zona Norte”, disse.
O pai, orgulhoso, ressalta a veia social e o empenho pela região mais população de Natal que aflorou no i lho. Jonatas trabalha junto com a noiva, também estudante de odontologia, percorrendo bairro por bairro. “Eu já tinha um trabalho muito bom na Zona Norte e agora botei ele e a esposa para lá. É um trabalho social que a gente faz”, conta.
Adão Eridan não esconde que a candidatura do filho é uma expansão do ‘trabalho social’ que desenvolve e que, no caso da condenação se efetivar de fato, é Jônatas quem vai tocar o barco. “Eu acredito em Deus, por isso estou tranquilo. Fui condenado em primeira instância mesmo estando de licença, cirurgiado. Mesmo assim fui o vereador mais votado de Natal depois da operação Impacto com 9.445 votos (eleição de 2008). Se eu for condenado a gente vai fazer a campanha do meu filho. E vou de cabeça erguida”, afirmou.
JULGAMENTO
Embora condenados em primeira instância, pela Lei da Ficha Limpa os réus da Impacto e tornarão inelegíveis apenas se o colegiado do Tribunal Regional da 5ª Região, para onde o processo subiu, mantiver a decisão do juiz da 4ª Vara Criminal Raimundo Carlyle. O mais provável, no entanto, é que este julgamento só aconteça no primeiro semestre de 2013. Assim, os suplentes dos vereadores condenados assumiriam imediatamente os cargos. Por isso, investir na campanha de um parente é estratégico. O óbvio ululante: quanto mais votos tiver o familiar de um vereador ‘impactado’, mais chances ele tem de chegar à Casa como eleito ou suplente.
Fonte: novo jornal
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